Blogger Widgets

Clube de mães...das minhas memórias...

Quando eu era criança pequena lá em barba...mentira...nasci e me criei aqui mesmo, na terra da garoa..salvo uns tempos em Goiás...mas isso é pra outro dia...

Bem, quando eu era criança, lá pelos meus 5 ou 6 anos havia um programa nas sextas a tarde que eu não perdia por nada nessa vida, nem mesmo se estivesse passando os 3 patetas na sessão da tarde, eu nem me arrumava, costumava ir com a roupinha que estava em casa mesmo...toda sexta as 14 horas eu tinha lugar certeiro pra ir: o clube de mães da igreja do bairro! Aff que eu não perdia era por nada. Minha mãe sempre tava lá, e eu, grudada nela que era, tava tambem! O combinado era cada mãe levar um prato para o lanche...como a gente era do tipo pobre de má rré de ci, mamãe levava sempre a garrafa de chá mate...as outras mães mais abastadas levavam bolos, milho de pipoca, curau e outros quitutes que eu na minha fome eterna, não perdia por nada desse mundo, tá, eu era cão sarnentinho mesmo e naquela época venderia uns dedos por comida...e se voce acha que ainda me vendo por comida...fique sabendo que eu amoooooooo empadinha!!!...(qualquer recheio)


Bom, lá ia eu e mamãe ladeira acima das ruas esburacadas daquele bairro que eu amava, apesar das enchentes, amava muito mesmo, era meu quintal aquelas ruas, eu jogava taco ali, bolinha de gude ali, esconde esconde ali e empinava minhas pipas, eu era feliz, muito feliz ali e pra completar toda sexta tinha parquinho, sessão de artesanato, mamãe e eu e comida na faixa. Simbora!

Minha mãe passava a tarde nas costuras com as outras donas Marias, era bordado, tapetes naquelas telas de pendurar na parede, ponto cruz de tudo que era imagem, o campeão era a Santa Ceia claro, todas carolas de igreja com os filhos coroinhas, tinha as mulheres dos crochet e das pinturas de tela das natureza morta, as mulheres do fuxico..com suas colchas interminaveis de rodelinhas...achava lindo...mas achava que aquilo era quase penitencia...tinha tambem aquelas que faziam cachecois e pegavam encomendas sim, e muitas, afinal todo mundo tem que ter um cachecol na vida né?!


Tinha as que bordavam o macramé, e faziam toalhinhas de rosto com bordados de florzinhas de todo tipo, aquele zumzumzum gostoso no salão da igreja, eu espiava o tempo todo, amava o parquinho, mas era doida pra fazer o ponto cruz bonito como uma senhora bordava, quando a gente chegava perto... elas expulsavam a gente e mandava voltar depois, na hora da pipoca, pra comer, parece que criança so era pra ir comer lá...e no fundo era verdade. De longe eu via minha mãe tão feliz, de cabelo pretinho pretinho, bem escovado, vestido arrumado, enfiada na papada dela (todo mundo aqui tem papada :)  bordando concentrada ou aprendendo a fazer boneca de peso de porta e vestido de crochet pra guardar caixa de palito de fosforo na cozinha. Minha mãe era tão feliz e eu feliz por ve-la feliz, eramos tão pobres, a vida era tão dura com ela, as vezes dura demais...mas eramos tão felizes de uma forma tão simples e muito humana.

Minha mãe aprendeu muitas artes no clube de mães, era de uma alegria imensa o convivio daquelas mulheres, como elas trocavam experiencias e conhecimentos, não tinham maquinas para fotografar seus trabalhos e claro não haviam celulares e redes sociais para que se perdessem no tempo vendo o que estava havendo na vida alheia a kilometros dali e por conta dessa falta de tecnologia acredito eu que se entragavam a tardes inteira de arte, troca, carinho e claro muita fofoca...mas uma fofoca diferente...sem maldades maldosas, sem querer acabar com a vida dos outros, aquela fofoquita do tipo: "Josinei trocou de carro outra vez, ta rico!" e voce não sabe:  "a mulher do Argenor tá gravida de novo e deve ser outra menina, ta com a barriga redooouuunda?!" essas coisas tolas da vida que não mata ninguem e não deixa ninguem doente de cama...fofoca de donas marias que se entregavam de coração ao que estavam fazendo e só queriam rir, aprender algo de bom e rezar uma Ave Maria antes de ir embora na capela da igreja...tudo simples...como a vida deveria ser...

eu com 5 anos...na rua...brincando de bola..
As 4 horas tinha o chá...ai Deus, amém! como eu amava aquele momento, aqueles minutos que precediam o "vem tomar o chá seus pirralhos"! quando eu e todos meus esfomeados e ranhentos (como eu) colegas de parquinho ouviamos o som e o cheiro da pipoca estalando no panelão na cozinha do salão...depois, as mães arrumavam uma mesa com os bolos, as garrafas de chá e cafe já adoçados, os pratos de bolinho de chuva (Deus, tem algo melhor nesse mundo?!), a travessa de curau da dona Dora, os sanduiches de pão pullman com patê de sardinha...e as bacias de pipoca quentinha e estourada na hora, eu sentava no colo da minha mãe tão cheirosa de sabonete, e ela tinha ainda aquele cheiro de linha nas mãos, de linha de bordar da Corrente, e ela me dava chá na canequinha e pedia pra eu tomar com cuidado pra eu não me queimar, ela se preocupava, era zelosa, eu comia bolo, com um gosto, como se fosse o primeiro e o ultimo pedaço do mundo, engolia meu bolo com goles de chá da minha mãe, chá mate, adoçado com açucar mascavo, todo mundo gostava daquele chá dela, ela fazia com esmero, era o que tinha pra levar, mas era feito com gosto...ela me olhava de peito cheio, devia ter uns sonhos ali naquele olhar pra mim....e eu passava o rabo de olho nela como quem queria dizer: conte comigo mãe!...a gente era feliz...e ai descia daquele colo largo dela, passava a mão na pipoca, enchia mesmo a mãozona, e saia correndo para o parquinho pra brincar mais um pouco antes de ir embora...

As 5 as donas Marias se despediam sem beijo nem abraço, só com aquela certeza de que estariam juntas na proxima semana e nas outras tambem, ali futricando e costurando, bordando, perto dos seus Pequenos que elas deixavam brincando no parquinho, comendo bolo e futricando, tomando chá e sendo felizes com o pouco que tinham mas com o muito que estavam aprendendo...cresci vendo essa cena semana após semana...elas iam para casa bater seus bifes e colocar seus feijões no fogo para seus maridos que estavam pra chegar da lida, elas iam para seus lares, cuidar dos seus, dar banho nos meninos, lavar a louça...naqueles lares simples, mas arrumados, porque as mulheres tinham mais tempo pra dedicar a eles, em cada bibelô havia um paninho de crochet e na cozinha cada pano de prato tinha um bordado para o dia da semana, eram lares que como o nosso naqueles dias...as vezes faltava comida, emprego...água ou cortavam a luz...onde haviam crianças medias e pequenas, que tinham sonhos de coisas maiores, mães que rezavam baixinho por dias melhores e mais pão...mas eram lares felizes, alugados ou proprios... bem cuidados e onde todos se amavam...porque na falta de coisas para amar...se amavam uns aos outros...

eu e minha mãe...
cresci assim...sinto saudade do Clube de Mães...sinto saudades dos tempos que passava com minha mãe e das artes que só ela sabia fazer...a gente era tão feliz...e trocavamos sonhos...saudade mãe...saudade de voce naquela época...



Como está chegando o Dia das Mães, pra compensar a saudade fiz um grupo de troca para as Mães...claro, não tem aquele calor, amor, pipoca, bolo, chá e aproximação...mas me faz reviver memorias otimas...de trocas...de ensinamentos...quem sabe amizades floresçam https://www.facebook.com/groups/diadasmaes



beijo meninas, beijo mãe...

Keli
7 comentários